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 150 Anos de Comboios: Instituto dos Ferroviarios no Barreiro
150 Anos Comboios Notável lar de protecção aos órfãos de todos os ferroviários portugueses

Antes do mais que ao diante lerá o leitor amigo e camarada ferroviário que a isso se dispuser, devemos, como abertura das nossas despretensiosas linhas, dar-lhe a conhecer a circunstância de vir­mos à sua presença na intenção de ser útil à numerosíssima classe a que pertencemos, das maiores que o País possui e onde durante quase meio século apenas conhecemos amizades e lealdade.



E esta lealdade, mãos dadas com o espírito so­lidário de amparo moral e material, encontrámo-la, numa casa que erroneamente tem sido julgada somente propriedade dos ferroviários do Sul e Sueste. Estes, é certo, deram vida, forma e feitio, como soe dizer-se, a um lar acolhedor para os pe­quenos que a fortuna não bafejou e que o destino conduziu para a orfandade no cumprimento da obrigação profissional dos seus progenitores.

Importa, por isso, afirmar e dar inteiro conhe­cimento de que a instituição é dos ferroviários do Sul, do Centro e do Norte. De todos, numa pala­vra, sem excluir os colegas da prestante Sociedade «Estoril», inadmitida, portanto, qualquer exclusão de partes.

Quer dizer, onde estiver uma via férrea, uma locomotiva, uma oficina, um escritório, uma esta­ção, um apeadeiro ou simples abrigo, está a voz gritante de uma instituição criada para minorar e proteger os nossos filhos de aviltante pobreza, re­sultante do infortúnio.

O Instituto dos Ferroviários do Sul e Sueste, cujos estatutos foram aprovados em 9 de Maio de 1924, mas que somente entrou em actividade em l de Janeiro de 1927, há, portanto, quatro décadas, é uma instituição cujos fins jamais tiveram ligeiro desvio, um lar para acolher os órfãos dos ferroviários falecidos, no qual recebem, carinhosamente, a educação e a instrução necessárias para se tornarem dignos e úteis à colectividade.

Para sua instalação adquiriu uma bela propriedade na vila do Barreiro, com todos os requisitos indispensáveis, compondo-se nas suas linhas gerais de dois grandes edifícios, ampla horta e aprazível parque para recreio.Foi fundada e tem sido dirigida e mantida pe­los ferroviários, na sua grande maioria. Conta presentemente 4500 sócios (quase todos ferroviários) e goza de justo prestígioNos seus estatutos estão estabelecidas as nor­mas da sua actividade. Os directores são eleitos por sufrágio anual entre os associados. Pelos relatórios das gerências se poderá verificar o escrúpulo e a honestidade que são postos na sua administração.

Sala de estudo e lavores da secção feminina

No edifício principal, encontram-se instalados em óptimas condições, o refeitório, dormitórios, copa, rouparia e o alojamento da senhora Regente. Do quadro do pessoal também faz parte o Vigi­lante, que tem o seu horário de trabalho diário, findo o qual deixa de prestar serviço. A senhora Regente tem residência própria na sede da ins­tituição.

Estes funcionários encarregam-se da alimenta­ção, do vestuário e da educação dos pupilos, sob a escrupulosa orientação dos directores.

Os internados cujas idades variam entre os seis e os dezoito anos, frequentam as escolas oficiais até à obtenção do exame de instrução primária. Aos que revelem inteligência e vontade de conti­nuar a estudar, depois de obtida a instrução ele­mentar, paga-lhes o Instituto todas as despesas es­colares, desde que se verifique, como é óbvio, o correspondente aproveitamento.

Anteriormente manteve nas suas dependências o Curso de Instrução Primária, com carácter par­ticular, desde 1927 a Julho de 1944, e oficialmente desta última data até 31 de Julho de 1963 ; Curso Industrial, de l de Outubro de 1938 a 1951 e Curso Liceal Feminino até ao 2.° ciclo, de l de Outubro de 1951 a 31 de Junho do ano findo, cur­sos estes que deixaram de funcionar por desistência dos professores, e, assim, ficaram desocupadas vas­tas dependências da sua propriedade. Entretanto, foi criada a comarca do Barreiro, e tais eram, e são, aquelas dependências que, havendo absoluta necessidade de instalar o respectivo Tribunal e não existindo naquela cidade trabalho, como justamente se designa, edifício que reunisse melhores condi­ções para o efeito do que o imóvel do Instituto dos Ferroviários, concordaram os seus corpos direc­tivos alugá-lo á municipalidade barreirense, facto que permitiu certo desafogo na vida do Instituto e proporcionou meios para melhorar ainda mais o bem-estar dos seus pupilos, aumentando o efectivo dos seus quadros de internamento.

Passaram, até hoje, por esta instituição cento e trinta e oito pupilos, muitos dos quais ocupando actualmente boas posições em várias empresas e no Exército.

Corroborando esta afirmação, citamos as se­guintes : Companhia dos Caminhos de Ferro Por­tugueses, Companhia União Fabril, Marinha Mer­cante, Fábrica de Papel da Abelheira e construção civil, onde se podem apontar operários especiali­zados, encarregados e construtores civis. E na Avia­ção Militar, encontram-se oficiais e sargentos, que do Instituto saíram devidamente preparados.

Tantos rapazes e raparigas, órfãos, que não poderiam educar-se e instruir-se por estarem despro­vidos de quaisquer recursos, são presentemente ex­celentes chefes de família e boas donas de casa, uns e outros aptos a transmitirem aos seus descen­dentes, aqueles sãos princípios aprendidos e noto­riamente desenvolvidos no Instituto. Sua frutuosa actividade e fins beneficentes, mereceu a condecora­ção pelo Governo da Nação em 6 de Janeiro de 1940, com o grau de Oficial da Ordem de Instru­ção Pública, constituindo desvanecedora distinção e honrosa manifestação de apreço pelos relevantes serviços sociais prestados.

Actualmente existem dez vagas para pupilos de ambos os sexos, e, apesar de uma circular distribuída a toda a rede ferroviária, informando a classe de que pode ser internada, consequentemente, mais uma dezena de rapazes e raparigas, nas condições já conhecidas, os pretendentes não preencheram totalmente as vacaturas. Não cremos que tal facto seja sintoma de ausência de necessidades. Certamente existem viúvas de ferroviários, mães vivendo com seus filhos em deficiente situação económica !...

Por que razão não pedem para serem internamente, dos neste Instituto, onde o sustento, educação e instrução, lhes são facultados graciosamente ?

Um aspecto da sala de estudo da secção masculina

Talvez não queiram separar-se dos seus filhos, esquecendo-se, digamos, no seu egoísmo maternal, de que não têm o direito de prejudicar o futuro dessas crianças.

Respeitável, sem dúvida, o sentimento materno, mas privados dos seus progenitores, as mães atra­vessam situações insustentáveis, nada adiantando ao conforto e preparação para a vida dos pobres órfãos.

Ferroviário: Daqui pedimos, onde quer que encontre um órfão necessitado, cujo pai tenha sido sócio do Instituto ou não o sendo tenha sido vítima de acidente no trabalho, o conduza ao Instituto e faça cientes as extremosas mães de que desta be­nemérita instituição saíram rapazes e raparigas que desfrutam, hoje, de boas situações, todos recebendo o pão da boca e do espírito, com excelente forma­ção moral e cívica.

Ferroviários de Portugal :

Conhecemos perfeitamente o Instituto, do qual também somos sócio. É, em resumo, uma bela obra, que nos honra perante o País e que todos nós temos o dever de ajudar, contribuindo para a sua manutenção.

Uma quota mensal mínima de 3$00, simples constitui uma tão pequena migalha, que ne­nhuma falta faz!

Contribuam, pois, para o seu progresso, sem hesitações, inscrevendo o vosso nome como sócio e levem-lhe o órfão necessitado que conheçam.

Está em curso a ampliação de um dos edifícios, que muito brevemente será inaugurado, oferecendo ainda maior capacidade de internamento de pupilos. O Instituto dos Ferroviários do Sul e Sueste, desde sempre dirigido por ferroviários graduados, é um raro exemplo. Bem pode orgulhar-se de ser uma obra social e humanitariamente notável, um lar acolhedor e confortável, não esqueçais, para os órfãos de todos os ferroviários portugueses.

Bem hajam quantos o criaram e generosamente lhe dão todo o seu esforço !

Grupo de pupilos do Instituto dos Ferroviários do Sul e Sueste

 

 

 

POR: JOSÉ AUGUSTO DOS SANTOS JÚNIOR

IN: Boletim da CP

no Ano de 1964

Enviado em Quinta, 7 de Janeiro de 2010 (22:58:02) por barreiroweb Bookmark and Share