40º Aniversário da luta da braçadeira preta – “Luto
Ferroviário"
1969 – Ano de importantes lutas e
grandes resultados
Há 40 anos atrás registaram-se importantes lutas dos ferroviários, com
grandes resultados, com uma acção emblemática, o “Luto Ferroviário”, ou a luta
da braçadeira preta.
Não foi a primeira luta dos ferroviários. Na história do caminho-de-ferro,
desde sempre se registaram imensas lutas, sempre na procura da conquista de
melhores condições de vida e trabalho e pela construção de uma sociedade
justa.
Vamos procurar, com o recurso à imprensa clandestina da época (Avante e
Militante), órgãos de informação do PCP, transcrever um resumo dos
acontecimentos relativos às lutas de 1969.
O Processo da luta reivindicativa
As lutas de 1969 tiveram o começaram a desenvolver-se, com
toda a intensidade, em Outubro de 1968 com a entrega no Ministério das
Corporações, por uma ampla comissão, duma exposição dos trabalhadores das
oficinas e da linha, quem em 3 semanas recolheu 10.150 assinaturas de
ferroviários que se identificaram inteiramente com as reivindicações nela
contidas, através de ampla discussão e consulta nos locais de
trabalho. Os ferroviários insistiam pela urgente satisfação das suas
prementes reivindicações, que eram as seguintes:
Aumento geral de 1.000$00 sobre os vencimentos actuais;
Subsídio de renda de casa;
Horário de trabalho de 8 horas para todas as estações, apeadeiros e
passagens de nível;
Pagamento das horas extra-ordinárias com mais 50% e a sua contabilização
feita diariamente;
Subsídio de férias de um mês de vencimento;
Assistência médica e, medicamentosa equivalente à dispensada pela
Federação das Caixas de Previdência;
Actualização dos subsídios para fardamentos.
Procurando o apoio público para a sua luta, a Comissão
-Nacional dos Ferroviários, depois de apresentar a exposição no Ministério das
Corporações, entregou cópias da mesma nas redacções ou delegações dos jornais
diários e Lisboa e Porto, assim como na TV, pedindo para lhe ser dada
publicidade. A censura impôs, porém, o mais completo silêncio aos órgãos de
informação.
Paralelamente, os trabalhadores administrativos dos Serviços Centrais
lançaram-se também na luta, entregando na Presidência do Conselho, em 30 de
Setembro, uma exposição subscrita por 757 assinaturas, cerca de metade dos
trabalhadores desses serviços, contendo várias reivindicações, entre as quais
são de destacar:
Aumento geral de vencimentos não inferiores a 1.000 escudos;
Revisão periódica dos vencimentos de modo a acompanhar o aumento constante
do custo de vida;
Concessão de 5% sobre o vencimento anual para efeitos de diuturnidade,
vencida de 3 em 3 anos até ao 9° ano e de 5 em 5 anos a partir do 9º
ano;
Concessão de um subsídio de renda de casa para o pessoal que habita nos
grandes centros populacionais;
Assistência médica e medicamentosa semelhante à usufruída pelos
beneficiários da Federação das Caixas de presidência;
Instituição do subsídio de férias nunca inferior a um mês de vencimento e
do 13º mês por ocasião do Natal;
Pagamento das horas extraordinárias a 50%.
Porque os trabalhadores apareceram unidos e com reivindicações comuns,
impunha-se a unificação orgânica das lutas e, com esse objectivo, cerca de uma
centena de ferroviários, na segunda quinzena de Outubro, levaram, a efeito, uma
reunião onde se discutiu como levar a luta por diante e como reforçar a
unidade e a organização unitária dos trabalhadores.
Assim, foi pedida ao Sindicato do Centro a convocação duma Assembleia-geral
extraordinária para debater os problemas respeitantes à revisão do Acordo
Colectivo de Trabalho. Mostrando-se mais uma vez divorciados dos ferroviários,
os dirigentes sindicais, (que eram controlados pelo governo fascista), sob os
mais variados pretextos, recusaram o pedido dos trabalhadores.
A Comissão Nacional dos Ferroviários, que assumiu a direcção da luta devido
ao papel demissionista dos sindicatos corporativos, dirigiu um apelo aos
trabalhadores, para que se fizesse pressão junto da Administração da C.P.
exigindo a satisfação das reivindicações num prazo mínimo. Trabalhadores de
algumas estações enviaram exposições à CP exigindo o horário das 8 horas, tendo
sido atendidos nessa pretensão.
Em Novembro e Dezembro de 1968 foram enviadas cartas e telegramas à
Administração da CP, enquanto se pressionava o Sindicato do Centro, para também
pressionar os responsáveis da CP e dessem força às suas reivindicações
Em resposta a esta acção dos ferroviários, o Ministério das
Corporações emite uma nota em que dava conta da constituição mista de
representantes do Sindicato, da “Companhia” e do Governo, com a tarefa de rever
em vários aspectos as disposições do ACT em vigor. Esta nota tinha como
objectivo desmobilizar os ferroviários e iludi-los sobre a disposição do Governo
de Marcelo Caetano. Nesse intento procuraram de todas as formas manobrar,
enganar, espalhar boatos e ilusões, propalando, ao mesmo tempo que a CP não
tinha fundos para satisfazer as reivindicações apresentadas.
O discurso do ministro das Corporações em 9-12-68 tentou justificar os baixos
salários dos ferroviários com os défices crónicos da CP, revelando que o governo
vinha entregando 500 mil contos anuais a CP, sem explicar que as razões do
défice e dos baixos salários tem a ver com a política seguida na empresa e nas
negociatas dos responsáveis da empresa.
Nesse discurso o Ministro da Corporações revela que o governo não tem a
intenção de satisfazer as justas reivindicações apresentadas pelos
ferroviários. Revela ainda que os cerca de 60 mil contos de novos encargos
com a reforma da Previdência prevista, num total de 130 mil contos, será
conseguido à custa, em grande parte dum futuro aumento das tarifas
ferroviária.
Quando o ministro diz «apelar para a consciência dos interessados,
lembrando-lhes a gravidade da hora que o país está a atravessar e que a todos
impõe especiais deveres», os ferroviários dizem com ironia: «Agradecemos muito o
papel de mártires, de sacrificados, de devotados à causa da manutenção do
equilíbrio da economia nacional que a nação há longos anos nos tem vindo a dar a
honra de desempenhar. E tempo, no entanto, de essa honra ser partilhada por
outros». Lembram em seguida os chorudos vencimentos dos administradores e os
aumentos que se atribuíram a si próprios nos últimos tempos (sem que o governo
alguma vez tivesse intervindo para os limitar) que nalguns casos passaram de
9.500$00 para 21.000$00 e de 13.600$00 para 23.000$00.
Na carta enviada ao Ministro e em resposta à argumentação do ministro de que
a C.P. é uma empresa deficitária e que isso é ma razão para os baixos salários
existentes, os trabalhadores respondem na sua carta: «A empresa a que
pertencemos é uma instituição de utilidade pública e nacional e o facto de não
ser rentável não é razão para que nós não mereçamos a justa retribuição do
nosso trabalho». E com ironia perguntam: «Ou será que ainda teremos de pagar à
Companhia se o défice existente aumentar!».
Passagem a novas formas de luta
Depois de lançar um apelo à unidade e firmeza
dos ferroviários, a Comissão Nacional promove um inquérito junto dos
trabalhadores, procurando auscultar a opinião geral quanto ao caminho a seguir
para o desenvolvimento vitorioso da luta. Ao mesmo tempo, espalhadas por
toda a linha, nas estações e nos comboios e até nos escritórios apareciam
pequenas tarjetas incitando os ferroviários a seguir o exemplo da Carris
(“Greve da mala em 1968, luta em que os cobradores não vendiam bilhetes).
Não tendo obtido resposta satisfatória às suas reivindicações, os
ferroviários recorrem a uma forma de luta original: o LUTO FERROVIARIO. Desta
forma, com braçadeiras negras, milhares de ferroviários davam a conhecer ao povo
português as razões da sua luta, rompendo assim a mordaça da censura.
O LUTO, iniciado no dia 2 de Janeiro, manteve-se durante alguns dias
apesar da repressão e da intimidação desencadeadas pela PIDE. "No Rossio, foi,
seguido por cerca de 90% dos trabalhadores; nas oficina do Barreiro, onde o
LUTO foi total entre os 2.000 operários, uma brigada da PIDE que procurava
forçar os operários a retirar o luto, mal teve tempo de se salvar da ira
provocada, tendo um agente sido atingido com uma barra de ferro nas pernas e o
chefe da brigada com uma grande «porca» de ferro nas costas. No
Entroncamento, o LUTO foi quase total, assim como nas zonas ferroviárias ao Sul
do Tejo, mas foi desigualmente seguido noutras regiões, particularmente no norte
do Pais".
O governo decreta precipitadamente o aumento
Perante esta magnifica acção de protesto dos ferroviários que
tudo indicava se preparavam paira passar a outras formas de luta, o governo
anuncia precipitadamente, no dia 8 de Janeiro, o aumento de vencimentos em 12,2%
em média, para os trabalhadores no activo, um aumento uniforme de 9% para os
reformados e pensionistas, a actualização dos abonos ou de subsídios por
deslocações e a equiparação do esquema de Previdência dos ferroviários ao das
instituições de Previdência da indústria e do comércio.
O governo conta poder assim quebrar temporariamente a combatividade duma
grande parte dos ferroviários, criar um motivo de divisão entre eles,
isolando da grande massa a vanguarda mais combativa. “Se o conseguiria ou não,
isso apenas dependeria da acção futura dos trabalhadores da CP”.
Fortalecidos por esta primeira e importante vitória, os ferroviários
fizera, um balanço do caminho já percorrido, reagruparam as suas forças,
melhorando e reforçando a sua organização e a sua unidade combativa, e
continuaram a luta.
Porque os salários eram bastante baixos, porque havia reivindicações por
satisfazer, porque o Governo e os sindicatos do regime procuravam afastar os
ferroviários da discussão dos problemas que lhe diziam respeito, em 2 de Agosto
de 1969, mil ferroviários oriundos de diversos pontos do País, concentraram-se,
à tarde, no centro de Lisboa, para apoiarem uma comissão que procurava reunir
com os dirigentes da União dos Sindicatos Ferroviários, porque este vinham
recusando a realização de uma Assembleia geral, reivindicada pelos
trabalhadores, para discussão do ACT em revisão, e que o governo, CP e
sindicatos corporativos preparavam-se para assinar à revelia dos
ferroviários.
A concentração foi fortemente reprimida pela polícia, presos dois
ferroviários, libertados nesse mesmo dia devido ao forte movimento de
solidariedade. Enfrentando essa repressão, mais de quinhentos ferroviários
manifestaram-se em plena Avenida da Liberdade, empunhando cartazes onde se lia:
“Ferroviários mantêm reivindicação de 1.000$00”; “Queremos horários de trabalho
humanos”; “Queremos sindicatos que defendam os interesses dos trabalhadores”;
“Queremos que o ACT seja amplamente discutido pela classe”.
Prosseguindo a pressão, os ferroviários voltam à luta no dia 20 de Outubro
entre as 15h e as 16h. Milhares de ferroviários em todo o País lutaram desta
forma em defesa das suas reivindicações. Nas oficinas do Entroncamento,
Barreiro, Figueira da Foz, Santa Apolónia, Campolide e Cruz da Pedra a
paralisação foi total. Muitas estações paralisaram em toda a rede A estação do
Rossio foi ocupada por cerca de mil ferroviários, que das mais variadas formas
impediram a circulação de comboios. Às 16 horas uma forte ovação dos
ferroviários e utentes assinalou o fim da greve.
O 7º Congresso Sindical Mundial, enviou uma solidarizou-se com os
ferroviários em luta, assim como milhares de portugueses. Esta greve
quebrou o imobilismo da negociação do Acordo Colectivo de Trabalho, que foi,
finalmente assinado em 10 de Novembro. Depois do aumento verificado em Janeiro
de 12,2%, em resultado da luta tiveram novos aumentos de 240$00 para salários
inferiores a 2.000$00; e de 200$00 para salários superiores a 2.000$00 e um
subsídio de férias de 50%, para além doutros direitos.
Esta importante vitória foi seguida de repressão, que teve a resposta à
altura. 20 ferroviários foram suspensos, mas perante uma onda de protesto, 19
foram readmitidos. Perante a ameaça de 3.000 despedimentos os ferroviários
respondem com a recusa a mais horas extraordinárias. São inúmeros os
exemplos de firmeza, coragem e determinação dos ferroviários nesta e noutras
lutas, como por exemplo este “No Entroncamento, quando se recolhiam assinaturas
para a carta ao ministro das Corporações, os chefes tentaram impedi-lo,
proibindo que a recolha se fizesse «na hora do serviço». Em resposta, os
operários foram unânimes em pedir meio-dia de licença, a fim de poderem assinar
a carta. Como aquela lhes fosse negada a pretexto de «não poder ser
concedida a todos», os operários resolveram assinar à hora do almoço,
tendo por esse motivo retomado todos o trabalho com 40 minutos de atraso”.
Só com a luta se vence e conquistam direitos

Foi com esta e outras lutas que se construiu o património de direitos que os
ferroviários dispõem, pelo que esse património não é de nenhuma organização, mas
propriedade dos trabalhadores ferroviários e é um legado que tem de ser
defendido para ser transmitido às futuras gerações.
Estes acontecimentos provam que os trabalhadores, mesmo nas condições mais
difíceis, sabem encontrar a maneira de se organizarem para lutarem pelas suas
reivindicações com vista a melhorarem as suas condições de vida e trabalho.
Direitos que hoje consideramos tão normais, só existem porque ao longo de
gerações de trabalhadores se lutou.
Uma das questões centrais da luta de 1969, para além das reivindicações de
melhores salários, era a organização do tempo de trabalho, que estão agora
novamente no centro da luta que desenvolvemos, em resultado do Código do
trabalho aprovado pela maioria PS na Assembleia da República. E agora, tal como
em 1969 é a luta que determinará a concretização das reivindicações dos
trabalhadores e a defesa dos seus interesses.
A melhor homenagem que podemos prestar àqueles que lutaram antes de nós, para
termos os direitos que hoje auferimos, é continuar a luta em defesa daquilo que
gerações de trabalhadores construíram e para nós, hoje, são coisas tão normais,
mas que exigiram muito sacrifício de quem nos precedeu.
JM
Imprensa consultada
O Militante – nº 159 de Fev 1969
Avante – nº 395 Set 1968; nº 397 Dez 1968; nº 399 Fev 1969; nº 400 Mar 1969;
nº 408 Out 1969; nº 409 nov 1969; nº 410 Dez 1969